domingo, 19 de fevereiro de 2017

Grandes discos do Heavy: Bolt Thrower - "War Master" (1991)

Uma das bandas mais consistentes e duradouras da Grã-Bretanha, o Bolt Thrower (tradução: lançador de raios) resistiu aos tempos e aos altos e baixos da evolução da música sem ceder às tentações comerciais, e o mais difícil, sem alterar muito seu som. O fato deles terem sido abençoados com uma formação estável (algo bem não usual) por quase toda a carreira sem dúvida contribuiu para esta estabilidade e, embora eles raramente tenham sido laureados com elogios efusivos, enquanto a maioria de seus competidores ou contemporâneos foi adotando outros estilos ou se aposentando, o Bolt Thrower foi gradualmente se estabelecendo como uma das melhores bandas de Death Metal a emergir da Inglaterra. O baixista Gavin Ward e o guitarrista Barry "Baz" Thompson formaram o Bolt Thrower na terra que deu origem ao Heavy Metal, na cidade industrial de Birmingham, em set/86, no banheiro de um Pub, durante um show de Punk Hardcore. A ideia eram tocarem coisas de bandas como Slayer, Crass e Discharge. Eles tiraram o nome de uma personagem em um de seus games de RPG favoritos (o "Warhammer Fantasy Battle") e logo a dupla se juntou ao vocalista Alan West e ao baterista Andrew Whale.
Em abr/87, a fita demo "In Battle There Is No Law" foi gravada com esta formação. Uma segunda demo, "Concession Of Pain" foi registrada em set/87. Gavin mudou para as guitarras e eles recrutaram Alex Tweedy para o baixo, que não apareceu para as gravações (Gavin teve que tocar guitarras e baixo) e, duas semanas depois, a namorada de Gavin, Jo Bench ingressou como baixista (uma das primeiras mulheres a fazer parte de um grupo de Metal extremo). Fiel ao seu nome, o Bolt Thrower iria se dedicar por toda a carreira a reportar todos os aspectos das guerras (histórias, armas, táticas, genocídios etc.) e rapidamente eles passaram a se apresentar aperfeiçoando um ataque musical brutal digno de sustentar tal temática. Apesar da inacessibilidade daquela música, o lendário DJ da rádio BBC 1 John Peel (que havia recebido a segunda demo e se tornado um entusiasta) tornou-se um apoiador de primeira hora e convidou a banda para várias "Peel Sessions" (a primeira ocorreu em jan/88 e todas foram, subsequentemente, lançadas em 1991). Isto ajudou demais e viabilizou um contrato com o selo Vinyl Solutions para o lançamento de um álbum. Exatamente antes das gravações começarem, o vocalista West foi substituído pelo motorista da van da banda (é mole?), Karl Willetts, que logo provou ser um sucessor muito mais adequado e apto à montagem da máquina de guerra do Bolt Thrower.
Lançado em set/1988, o álbum de estreia "In Battle There Is No Law", com apenas meia hora de duração e um som ultra primitivo e cru, foi categorizado como Grindcore (gênero evolução do Hardcore rumo ao Metal extremo). Ajudado pela produção cavernosa e embolada, o álbum era uma massa congelada de riffs caóticos de guitarras e poderosas batidas, porém longe da brutalidade feroz do que ainda viria. O pequeno impacto, as baixas vendas, a falta de um foco artístico marcaram este trabalho como uma espécie de tentativa, ainda que as letras já estivessem mergulhadas nas obsessões guerreiras da banda. Insatisfeitos com o contrato da Vinyl Solution (um selo voltado ao puro Hardcore), que não promoveu o disco, decidiram sair e assinar com a Earache Records (selo especializado em Metal, que já havia assinado com bandas como Carcass e Napalm Death). "Realm Of Chaos", de out/89, também teve produção pobre, embora representasse clara evolução em relação ao anterior. A capa foi feita pela Games Workshop, uma empresa de games (aliás, todo o disco estava atrelado à atmosfera do game "Warhammer 40,000" e a própria Games Workshop já havia lançado, um ano antes, um game chamado "Realm Of Chaos: Slaves To Darkness"). A maioria das letras, claro, eram influenciadas pelo game. Karl, Andy e Gavin eram fãs dos games daquela produtora e compuseram canções pensando neles. As canções mesmo não eram tão diferentes entre si. Imperava a massa grossa, com guitarras de afinações baixas, bateria hiper movimentada, vocais roucos e gritados. Sem destaques reais, "Realm Of Chaos" era Death Metal mais pronunciado, mas nada demais. Após este disco, a banda ingressou na hoje lendária Grindcrusher Tour (junto com colegas de selo - Napalm Death, Carcass e Morbid Angel), que atravessou o Reino Unido. Na sequência, lançaram o EP "Cenotaph", em 1990, com quatro faixas (uma delas gravada ao vivo durante a Grindcrusher Tour). Continuando, eles gravaram a terceira e última "Peel Session" (em jul/90, onde tocaram três canções que iriam aparecer no álbum seguinte. "War Master", lançado em fev/91 e gravado nos Slaughterhouse Studios durante duas semanas, com capa feita pelo designer-chefe da Games Workshop, foi o grande disco do Bolt Thrower e dispararia uma nova fase para eles. Produzidos por Colin Richardson (que os ajudou a conseguirem a precisão e a intensidade tão procurada nas gravações), o álbum trouxe finalmente o tipo de som marca-registrada da banda. Willetts e seus urros guturais inacreditáveis eram combinados com uma parede quase impenetrável de densos riffs (a cargo de Ward e Thompson), mais a bateria de dois bumbos. Curiosamente, eles não recorriam à ultra velocidade, preferindo ritmos mais cadenciados, martelados, o que dava até um resultado mais poderoso. Assim, sem soar tão extremo (quanto outras bandas do próprio selo Earache), o Bolt Thrower conseguiu um Death Metal, digamos, mais acessível. Ainda que os vocais fossem típicos do Grindcore, a velocidade era cadenciada (por vezes, até lenta), tornando letras mórbidas como em "The Shreds Of Sanity", "Destructive Infinity" e "Profane Creation" de mais fácil compreensão. Uma fórmula revigorante que caiu no gosto dos fãs e que permitiu que a banda fizesse turnês pela Europa e gravasse uma trinca de álbuns muito elogiados ("The IVth Crusade", de 92, "For Victory", de 94 e "Mercenary", de 98) mantendo um caminho gradual rumo ao assombrado Doom Metal.

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